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Perdas e danos

Updated: Dec 15, 2022

Pierre Joseph Felix de Saisset morre em casa, no Rio de Janeiro, aos 54 anos, vítima de febre amarela

Sem dar qualquer aviso ou explicação, Pedro de Saisset, filho biológico do imperador D. Pedro I, deixa o Rio de Janeiro em fevereiro de 1849 e embarca numa longa jornada, rumo à Califórnia. Na chegada, perde todo o dinheiro que havia levado para tocar os novos projetos, quando Evander Kemp, capitão do Hector, zarpa do porto de São Francisco e leva consigo os valores a ele confiados pelo jovem.


Os mais de 130 dias no mar, somados às adversidades financeiras e à necessidade de sobrevivência em um lugar incipiente, causam-lhe forte impacto emocional. Pedro se isola e passa um extenso período sem contato com a família. A mãe, a irmã e o irmão, todos lhe escrevem diversas cartas, que são ignoradas uma a uma. Aquele começo de vida, no outro lado do mundo, foi marcado por solidão, depressão e muita dor.


O silêncio só é quebrado em 1851. “Meu querido Pedro, finalmente recebi notícias suas, a sua mãe me enviou cópia da sua carta de 1º de abril último. Como, meu querido filho, você pode passar 16 longos meses sem nos dar notícias?”, escreveu-lhe do Rio de Janeiro Pierre Felix de Saisset, marido de Clémence, em 14 de agosto de 1851.


Pierre conta que deixou Paris no dia 20 de abril e chegou ao Brasil em 7 de junho. Foi então que descobriu nada mais possuir no Rio. Nem mesmo a casa onde morava. “Fui obrigado a hospedar-me em um hotel”. Ele explica ao filho que tudo foi obra do Monsieur la Riviére. “Olha aonde ele queria chegar, quando enviou você para a Califórnia. Como lamento não ter vindo eu mesmo para o Rio, em vez de ter incumbido você de estar aqui. Mas eu não podia deixar Paris naquele momento.”


Ele pede a Pedro que volte para casa. “Eu preciso de você para continuar os negócios. Não sou mais jovem e gostaria de descansar. Mas, para isso, preciso de um sucessor que dê continuidade ao que acabei de construir.” Assina a carta de forma afetuosa “Um beijo de todo o meu coração. Seu pai e amigo, P. Saisset” e lembra ao filho que se a California se apresentar mais vantajosa que o Rio, sempre haverá oportunidade de retornar.


Em dezembro, Pierre envia nova carta e diz que fez contatos com um conhecido em São Francisco, que ajudará Pedro a regressar para Paris. “Adeus, meu querido filho. Beijo-te de todo o meu coração. Teu verdadeiro amigo e pai, P. Saisset.” Mas Pedro não responde a estas e nem às outras cartas enviadas por Pierre. Por algum motivo, reserva ao único pai que conheceu o mais profundo silêncio.


Em fevereiro de 1852, Pierre faz mais uma tentativa. “Você deve ser um homem agora. Volte para casa, eu preciso de um amigo, de um camarada e não existe melhor escolha que meu próprio filho. Você sabe o quanto eu te amo e nunca poderá duvidar disso (...) A amizade que lhe mostrei desde a sua mais tenra infância nunca poderá ser questionada, nem por um segundo. Eu fui mais que um pai para você, eu fui um amigo. Volte meu querido filho, deixe-me beijá-lo mais uma vez. Na minha idade, os dias já estão contados e seria muito doloroso para mim deixar este mundo sem poder cerrá-lo nos meus braços mais uma vez.”


No mês seguinte, o marselhês Pierre Joseph Felix de Saisset morre em casa, no Rio de Janeiro, aos 54 anos, vítima de febre amarela, sem jamais receber uma resposta de Pedro. Ele morava na Rua da Quitanda, no. 59. O óbito foi atestado pela irmã, Marguerite Françoise Elisabeth Félicité Saisset, e por seu marido, o também comerciante, Antoine Barthélemy Agirony.


O corpo de Pierre, conforme uso naquele tempo, foi vestido com o hábito de São Francisco e enterrado no Cemitério de Pedro Segundo. A morte dele causou grande desavença na família de Saisset. Marguerite cortou relações com Clémence e, por associação, com os sobrinhos Pedro, Ernest e Elisabeth. Os dois lados só irão se recompor no final do século XIX, quando um neto de Marguerite se mudará para a Califórnia.



Losses and damages


Pierre Joseph Felix de Saisset dies at home in Rio de Janeiro, age 54, a victim of yellow fever


Without giving any warning or explanation, Pedro de Saisset, biological son of Emperor D. Pedro I, left Rio de Janeiro in February 1849 and embarked on a long journey toward California. Upon arrival, he loses all the money he had taken with him to carry out new projects, when Evander Kemp, captain of the Hector, leaves the port of San Francisco, taking the funds and goods entrusted to him by the young man.


More than 130 days at sea, added to financial adversities and the need to survive in an incipient place, caused him a strong emotional impact. Pedro isolates himself and spends an extended period without contact with his family. His mother, sister and brother all write him several letters, which are ignored one by one. That beginning of life, on the other side of the world, was marked by loneliness, depression and a lot of pain.


The silence was only broken in 1851. “My dear Pedro, I finally received news from you, your mother sent me a copy of your letter dated April 1st. How, my dear son, could you go 16 long months without sending us any news?”, wrote him from Rio de Janeiro Pierre Felix de Saisset, husband of Clémence, on August 14, 1851.


Pierre continues the letter to Pedro, telling him that he left Paris on April 20th and arrived in Brazil on June 7th. It was then that he discovered he had nothing left in Rio. Not even the house where he lived. “I was obliged to stay in a hotel”. He explains to his son that it was all the work of Monsieur la Riviére. “Look what he was getting at when he sent you to California. How I regret that I didn't come to Rio myself, instead of making you come here. But I couldn't leave Paris at that moment.”


He asks Pedro to come home. “I need you to continue business. I am no longer young and would like to rest. But for that, I need a successor to continue what I just built.” He affectionately signs the letter “A kiss from all my heart. Your father and friend, P. Saisset” and reminds his son that if California proves to be more advantageous than Rio, there will always be an opportunity to return.


In December, Pierre sends another letter and says that he made contact with an acquaintance in San Francisco who will help Pedro return to Paris. “Farewell, my dear son. I kiss you with all my heart. Your true friend and father, P. Saisset.” But Pedro does not reply to these or to the other letters sent by Pierre. For some reason, he treats the only father he has ever known with a deepest silence.


In February 1852, Pierre makes one more attempt. “You must be a man now. Go back home, I need a friend, a comrade and there's no better choice than my own son. You know how much I love you and you can never doubt it (...) The friendship I showed you from your earliest childhood can never be questioned, not for a second. I was more than a father to you. I was a friend. Come back my dear son, let me kiss you one more time. At my age, the days are already numbered and it would be very painful for me to leave this world without being able to hold you in my arms once again.”


The following month, Pierre Joseph Felix de Saisset, a frenchman born in Marseille, died at home in Rio de Janeiro at age 54, a victim of yellow fever, without ever receiving a response from Pedro. He lived at Rua da Quitanda, no. 59. His sister, Marguerite Françoise Elisabeth Félicité Saisset and her husband, Antoine Barthélemy Agirony, attested to his death.


Pierre's body, as was the custom at the time, was dressed in the habit of Saint Francis and buried in the Pedro Segundo Cemetery. His death caused a great rift in the Saisset family. Marguerite severed ties with Clémence and, by association, with her nephews Pedro, Ernest and Elisabeth. The two sides will only recover at the end of the 19th century when one of Marguerite's grandsons will move to California.


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