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Mãe e mulher – parte 02

Updated: Dec 16, 2022

“Se não por mim, se não para cumprir as vossas promessas reais, que seja por ele, pelo vosso filho.”


Desamparo, solidão e dor. A carta de Clémence de Saisset a D. Pedro revela para além dos esforços de uma mãe, que busca atenção financeira ao filho. No decorrer das seis páginas, traduzidas pelo blog e divididas em três partes, ela também expõe seus sentimentos com o término da relação. De forma discreta e com uma dose de elegância, Madame de Saisset se mostra consciente das escolhas que fez, ao envolver-se com o imperador do Brasil, mas deixa evidente que essa percepção não reduz o sofrimento e a sensação de abandono enquanto mãe e mulher. A longa queixa, redigida em agosto de 1834, provavelmente nunca foi lida pelo duque de Bragança. Ele morreu em setembro do mesmo ano, vítima de tuberculose, aos 36 anos.


(...) Meu único consolo era Pedro. É meu filho e não consigo olhar para ele e beijá-lo sem ter a certeza de que ele não será infeliz, e de que Vossa Majestade não poderá consentir no abandono de vosso filho. O senhor não pode cobrir seus outros filhos de bênçãos e deixar necessitado aquele que leva o seu nome e cujo nascimento ninguém ignora. Não! É inconcebível que o senhor permita que seu próprio filho sofra o estado de privação e de constrangimento, imposto pelo esquecimento que o senhor dispensa à mãe dele.


Se não por mim, se não para cumprir as vossas promessas reais, que seja, ao menos, por ele, pelo vosso filho. Se Vossa Majestade pudesse vê-lo, como é bonito, que dignidade em seu olhar, apesar de todas as tristezas que o nascimento dele causou. Não posso deixar de adorá-lo e, se Vossa Majestade entende que deve abandoná-lo, eu não farei igual, mesmo que precise trabalhar dia e noite para criá-lo de maneira digna, conforme exige a posição dele. Não existem sacrifícios que eu não esteja disposta a fazer. Sou a mãe de Pedro e tenho orgulho do meu filho.


Vossa Majestade não pode colocar-se contra mim, por medo de desagradar à imperatriz: o nascimento do meu filho é anterior ao vosso casamento. A imperatriz não pode, portanto, sentir-se ofendida pelo fato de Vossa Majestade prover as necessidades e a educação de vosso filho. Ela também é mãe, não pode considerar errado que o senhor pense no futuro de todos os vossos filhos.


Quando ele nasceu, Vossa Majestade deveria dar-lhe 500 libras esterlinas por mês. Aos quatro anos de idade, esta soma seria dobrada. Quando ele foi batizado, o senhor Gomes da Silva escreveu-me para informar que Vossa Majestade lhe havia concedido 28 libras esterlinas por mês, para cobrir as necessidades dele. Porém, nada disso aconteceu! Exceto por alguns milhares de francos que recebi no espaço de quase quatro anos.


Agora, acabo de receber a visita do Sr. Gonçalves, padrinho dele, que acaba de me dar, em nome de Vossa Majestade, 5.000 francos. Meu primeiro impulso seria o de agradecer, se não estivessem misturados o prazer de receber esta pequena quantia e a convicção de que o valor está muito longe de atender a todas as exigências que enfrento neste momento. Como não recebo a pensão há três anos, trabalho e poupo, mas utilizei todos os recursos que tinha disponível no decorrer desse longo espaço de tempo. E apesar de todas as minhas economias, ainda tenho uns 20 mil francos em dívidas


Nem por um só instante eu imaginei que Vossa Majestade não cumpriria as vossas promessas reais. Para mim, elas eram sagradas, tanto que depositei total confiança nelas. Entendo que, obrigado a investir todos os vossos recursos para garantir o sucesso da causa de vossa sagrada e Augusta filha, Vossa Majestade tenha precisado negligenciar as obrigações que, voluntariamente, havia assumido perante mim. Mas, agora que Vossa Majestade conseguiu gloriosamente confirmar vossa nobre filha no trono de Portugal, o senhor deveria pensar em assegurar o futuro de vosso filho e em cumprir as promessas reais feitas para a mãe dele.



Mother and woman - part 02


If not for me, if not to fulfill your royal promises, let it be for him, for your son”


Helplessness, loneliness and pain. Clémence de Saisset's letter to D. Pedro reveals beyond the efforts of a mother who seeks financial attention to her son. Throughout the six pages, translated by the blog and divided into three parts, she also exposes her feelings after the end of the relationship. Discreetly and with a dose of elegance, Madame de Saisset shows herself to be aware of the choices she made when becoming involved with the Emperor of Brazil, but makes it clear that this perception does not reduce the suffering and the feeling of abandonment as a mother and a woman. The long complaint, written in August 1834, was probably never read by the Duke of Braganza. He died in September of the same year, a victim of tuberculosis, aged 36.


(...) My only consolation was Pedro. He is my son and I cannot look at him and kiss him without being certain that he will not be unhappy, and that Your Majesty will not be able to consent to the abandonment of your son. You, my Lord, cannot cover your other children with blessings and leave in need the one who bears your name and whose birth no one is ignorant of. No! It is inconceivable that you allow your own son to suffer the state of deprivation and embarrassment imposed by the forgetfulness that you grant his mother.


If not for me, if not to fulfill your royal promises, then at least let it be for him, for your son. If Your Majesty could only see him, how handsome he is, what dignity in his eyes, despite all the sadness his birth has caused. I cannot help adoring him, and if Your Majesty sees fit to abandon him, I will not do the same, even if I have to work day and night to bring him up in a dignified manner, as his position requires. There are no sacrifices I am not willing to make. I am Pedro's mother and I am proud of my son.


Your Majesty cannot stand against me for fear of displeasing the Empress: the birth of my son precedes your marriage. The Empress cannot, therefore, feel offended that Your Majesty provides for your son's needs and education. She is also a mother, it cannot be considered wrong that you think about the future of all your children.


When he was born, Your Majesty was supposed to give him £500 a month. By the age of four, this sum would be doubled. When he was baptized, Mr. Gomes da Silva wrote to me to inform me that Your Majesty had granted him £28 a month to cover his needs. However, none of that happened! Except for a few thousand francs I got in the space of almost four years.


Now, I have just received a visit from Mr. Gonçalves, his godfather, who has just given me, in Your Majesty's name, 5,000 francs. My first impulse would be to say thank you, if the pleasure of receiving this small sum were not mixed with the conviction that the amount is far from meeting all the demands I face at the moment. Since I haven't received my pension for three years, I work and save, but I used all the resources I had available during that long period of time. And despite all my savings, I still have some 20,000 francs in debt.


Not for a single moment did I imagine that Your Majesty would not keep your royal promises. For me, they were sacred, so much so that I placed complete trust in them. I understand that, obliged to invest all your resources to guarantee the success of the cause of your sacred and August daughter, Your Majesty has had to neglect the obligations that, voluntarily, you had taken before me. But now that Your Majesty has gloriously confirmed your noble daughter on the throne of Portugal, you should think about securing your son's future and fulfilling the royal promises made to his mother.

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