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Dever de mãe - parte 01

Updated: Dec 16, 2022

“Jamais havia considerado a possibilidade de tamanha catástrofe. E que futuro se abriu diante de mim?”

D. Pedro saiu vitorioso da guerra travada contra o irmão, D. Miguel, mas não retomou os pagamentos da pensão destinada ao filho. A falta de notícias causou grande revolta em Clémence de Saisset e motivou-a a redigir longa queixa ao duque de Bragança, que foi remetida em duplicata. Uma por intermédio de Marcelino Gonçalves. Outra, pelo Chalaça.


O documento original possui seis páginas e, muito provavelmente, nunca chegou às mãos de D. Pedro, uma vez que foi redigido em agosto de 1834 e ele faleceu no palácio de Quéluz, em Portugal, em 24 de setembro do mesmo ano. O blog traduziu a carta do francês e dividiu-a em três partes. Para facilitar a leitura, houve pequenas adaptações quanto à escolha das pessoas verbais.


Senhor,


A infeliz situação em que me encontro – e um dever sagrado, já que se trata de vosso filho e do meu – obriga-me a quebrar o silêncio, o qual entendi que deveria guardar em consideração ao casamento de Vossa Majestade. Vosso filho está prestes a completar cinco anos, senhor, e o destino dele ainda é incerto. Entendo que Vossa Majestade, inteiramente ocupada em fazer triunfar a causa de vossa Augusta filha, deve ter aplicado todos os vossos recursos para atingir o almejado sucesso. Atribuí, portanto, a esta preocupação o abandono em que deixastes meu filho e a mim por mais de três anos. Coube-me respeitar tão sagrado motivo e esperar até que Vossa Majestade, pelo sucesso de vossas armas, substituísse vossa filha no trono de Portugal e pudesse, finalmente, atentar para o destino de um de vossos filhos.


Desde a chegada de Vossa Majestade à Europa, o senhor suspendeu uma pensão que julgou adequada me conceder, uma pensão que eu não havia pedido, mas que aceitei com gratidão. Ela veio para compensar, em parte, os sacrifícios que exigi de meu marido para deixar uma casa comercial, que agora faz a fortuna de seu sucessor. Apesar do constrangimento e do estado precário em que me encontro desde então, não protestei contra essa medida. Afinal, eu tinha motivos para acreditar que esta pensão seria inamovível.


Peço a Vossa Majestade o obséquio de vos recordar de vossas palavras ao entregar-me este título de pensão. Foi na presença do senhor Lasserre. O senhor me disse: isso não vai deixar-te rica, mas, pelo menos, estarás protegida dos imprevistos. Um comércio pode falir. E, mesmo que eu morra, meu filho respeitará os meus desejos e esta pensão nunca lhe será suspensa.


Repleta de confiança na palavra real de Vossa Majestade, certa de vossas promessas, que me permitiriam, inclusive, criar meus outros filhos adequadamente, procurei dissuadir meu marido de qualquer pretexto para retornar ao Rio, onde ele não poderia mais trabalhar, e incentivei-o a liquidar um negócio que garantiria o seu sucesso profissional e o sustento dos meus filhos. Avalie o meu arrependimento, senhor, quando vi suspensos os meios que asseguravam a minha subsistência, cuja concessão dependia da vossa bondade.

Jamais havia considerado a possibilidade de tamanha catástrofe. E que futuro se abriu diante de mim? Sujeita às censuras de um marido cuja ruína eu havia causado, de filhos que um dia teriam o direito de atribuir-me todas as desgraças de suas vidas.



Mother's duty - part 01


“I had never considered the possibility of such a catastrophe. And what future opened up before me?”


D. Pedro emerged victorious from the war waged against his brother, D. Miguel, but did not resume payments of the pension intended for his son. The lack of news caused great revolt in Clémence de Saisset and motivated her to write a long complaint to the Duke of Bragança, which was sent in duplicate. One through Marcelino Gonçalves. Another, by Chalaça.


The original document has six pages and, most likely, never reached D. Pedro, since it was written in August 1834 and he died in the palace of Queluz, in Portugal, on September 24 of the same year. The blog translated the letter from the French language and divided it into three parts. To facilitate reading, there were small adaptations regarding the choice of pronouns.


Sir,


The unfortunate situation in which I find myself – and a sacred duty, since it concerns your son and mine – obliges me to break the silence, which I understood I should keep in consideration of Your Majesty's marriage. Your son is about to turn five, sir, and his fate is still uncertain. I understand that Your Majesty, entirely occupied in making the cause of your August daughter triumph, must have applied all your resources to achieve the desired success. I attributed, therefore, to this concern the abandonment in which you left my son and me for more than three years. It fell to me to respect such a sacred motive and wait until Your Majesty, through the success of your arms, replaced your daughter on the throne of Portugal and could finally pay attention to the fate of one of your children.


Since Your Majesty's arrival in Europe, you have withheld a pension which you saw fit to grant me, a pension which I had not asked for, but which I gratefully accepted. It came to compensate, in part, for the sacrifices I demanded from my husband to leave a trading house, which now makes his successor's fortune. Despite the embarrassment and precarious state I have been in since then, I have not protested against this measure. After all, I had reason to believe that this pension would be immovable.


I ask Your Majesty the favor of reminding yourself of your own words when handing me this pension title. It was in the presence of Mr. Lasserre. Your Majesty told me: this will not make you rich, but at least you will be protected from the unforeseen. A business can go bankrupt. And even if I die, my son will respect my wishes and this pension will never be withheld from you.


Filled with confidence in Your Majesty's royal word, certain of your promises, which would even allow me to raise my other children properly, I tried to dissuade my husband from any pretext to return to Rio, where he would no longer be able to work, and I encouraged him to liquidate a business that would guarantee his professional success and the support of my children. Measure my regret, my Lord, when I saw suspended the means that ensured my subsistence, whose grant depended on your goodness.


I had never considered the possibility of such a catastrophe. And what future opened up before me? Subjected to the reproaches of a husband whose ruin I had caused, of children who would one day have the right to blame me for all the misfortunes of their lives.


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