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A vida em Paris

Updated: Dec 16, 2022

Eu esperava que a duquesa de Bragança, em memória de Sua Majestade, não deixasse um filho dele em tal estado de constrangimento."

A morte de D. Pedro I, em setembro de 1834, foi um baque para Clémence de Saisset. O principal temor, expressado em carta a Francisco Gomes da Silva, datada de dezembro, era de que o filho não mais recebesse a ajuda financeira prometida pelo pai biológico. “Avalie o meu desespero ao saber de uma morte tão repentina. Meu pobre filho privado de um pai e de um protetor! Diga-me, senhor, que S.M. não se esqueceu dele em seu testamento. Conto com a sua amizade de sempre para informar-me, logo que este assunto chegar ao seu conhecimento. Preciso tranquilizar-me sobre o futuro de Pedro e necessito conhecer os arranjos de S. M. no que diz respeito a ele.”


A francesa não levou o filho para as cerimônias fúnebres, mas o fez guardar luto. “Certa vez, porém, vestiram-me todo de preto, dizendo-me que meu Amigo estava morto. Eu não sabia quem era aquele que eu havia acabado de perder, relembrará Pedro de Saisset, em carta ao meio-irmão D. Pedro II, três décadas depois. Enquanto viveu em Paris, o primeiro imperador do Brasil recebia visitas do filho, mas jamais revelou que era seu pai. O pequeno Pedro tinha cinco anos quando perdeu o misterioso Amigo, que o colocava nos joelhos e dava-lhe doces.


Em abril de 1865, Clémence já tinha a informação de que o duque de Bragança havia incluído Pedro em seu testamento. “Sua majestade, o imperador, ao legar essa fortuna ao filho, pretendia que ele fosse criado de maneira digna, compatível com o seu alto nascimento. Seria preferível que uma resposta a esta carta pudesse colocar-me a par da quantia que é devida ao meu filho e me permitisse tomar posse do que lhe legou seu Pai”, diz em nova carta a Gomes da Silva.


Mas a parte de Pedro na herança não veio imediatamente. Em agosto, a mãe envia nova queixa a Gomes da Silva. “Soube que já houve partilha do que se encontra disponível, foi citada a cifra do que é devido aos Filhos do Brasil e à imperatriz. Por que nem todos os filhos participam destas distribuições? São os interesses do meu filho e meu dever é, portanto, tomar as providências necessárias para garantir os seus direitos (...) Eu esperava que a duquesa de Bragança, em memória de S. M, não deixasse um filho dele em tal estado de constrangimento.” Clémence conclui a carta solicitando um adiantamento da herança, que foi negado.


Apesar da ausência do D. Pedro, o menino recebeu a melhor educação existente na época, algo que o pai sempre fez questão de oferecer a todos os filhos, tanto homens como mulheres. Em 1º de abril de 1839, perto de completar 10 anos, Pedro de Saisset foi matriculado em um dos mais notáveis estabelecimentos de ensino da França, o Lycée Louis-le-Grand, onde já estudava o seu irmão Pierre Joseph Ernest, nascido no Rio de Janeiro. A escola, fundada pelos jesuítas no coração do Quartier Latin, em outubro 1593, também foi responsável pela educação de nomes famosos, como o dramaturgo Molière, o filósofo Voltaire, e o pintor Delacroix. De lá, saíram sete prêmios Nobel, incluindo Jean-Paul Sartre e Frédéric Passy.


Pedro e Ernest eram internos. Como tinham residência em Paris, dispunham da opção de passar todos os domingos em casa ou retornar quinzenalmente, conforme a vontade dos pais. Havia, também, aqueles internos que só voltavam para casa nas férias escolares, o que deveria ser o caso dos irmãos Juan e Luis Paes de Andrade de Carvalho, ambos pernambucanos, que também passaram pelo Louis-le-Grand, no século XIX.


As anotações escolares, repassadas com exclusividade para o Blog, indicam que Pedro foi vacinado contra as doenças da infância e que teve rubéola. O Louis-le-Grand também fez questão de registrar que ambos não haviam feito a Primeira Comunhão e, tampouco, a Crisma. Além dos endereços dos pais, a avó paterna, os primos Joseph Héliodore Garcin de Tassy e Marie Félicité Sophie Saisset, aparecem como contato das crianças. Garcin de Tassy é, até hoje, considerado um dos maiores orientalistas da França.


Aos 15 anos, um pouco antes de terminar os estudos, a vida de Pedro parece não ser das melhores. O pai biológico havia falecido há 10 anos e o adotivo vivia no Rio de Janeiro. Com a morte de D. Pedro, Pierre retomou seus negócios na corte e, de tempos em tempos, cobrava pelo seu silêncio em relação ao “filho da esposa”, forma como se referia a Pedro nas questões da pensão assegurada pelo imperador.


Uma carta de Paulo Barbosa da Silva, mordomo da Casa Imperial do Brasil, ao diplomata Araújo Ribeiro, que mais tarde se tornaria Visconde de Rio Grande, indica que Pedro passava necessidades, situação que foi levada ao conhecimento de D. Pedro II. “Tive a honra de apresentar a S.M. o Imperador a carta de V.Ex de 12 de julho do corrente anno relativa ao estado de pobreza do filho de Mme. Saisset.”


O irmão imperador, então, cogitou a possibilidade de Pedro ser educado em Munique, pelo médico e botânico Carl Friedrich Philipp von Martius, com quem tinha um bom relacionamento. A ideia, porém, não foi adiante. Conforme mencionava a carta, seria necessário Clémence concordar em entregar o filho para ser criado em outro país. O fato é que Pedro permaneceu na França e concluiu seus estudos em setembro de 1847. Nessa época, o seu endereço era a Rue Ponthieu, casa do tio Théodore Saisset, almirante de guerre.



Life in paris


“I had hoped that the Duchess of Bragança, in memory of Her Majesty, would not leave his son in such a state of embarrassment”


The death of D. Pedro I, in September 1834, was a blow to Clémence de Saisset. The main fear, expressed in a December letter to Francisco Gomes da Silva, was that her son would no longer receive the financial aid promised by his biological father.” Measure my despair at learning of so sudden a death. My poor son deprived of a father and a protector! Tell me, sir, that H.M didn't forget about him in his will. I count on your usual friendship to inform me as soon as this matter comes to your attention. I need to reassure myself about Pedro's future and I need to know H.M's arrangements as far as he is concerned.”


The Frenchwoman did not take her son to the funeral ceremonies, but made him mourn. “Once, however, I was dressed all in black, and told that my Friend was dead. I didn't know who I had just lost,, recalls Pedro de Saisset in a letter to his half-brother D. Pedro II, three decades later. During the time he lived in Paris, the first Emperor of Brazil received visits from his son, without ever revealing that he was his father. Little Pedro was five years old when he lost the mysterious Friend, who would put him on his knees and give him candies.


In April 1865, Clémence already had information that the Duke of Bragança had included Pedro in his will. “His majesty, the emperor, by bequeathing this fortune to his son, intended that he be brought up in a dignified manner, compatible with his high birth. It would be preferable if a reply to this letter could inform me of the amount owed to my son and allow me to take possession of what his father bequeathed him,” she says in a new letter to Gomes da Silva.


But Pedro’s share of the inheritance did not come immediately. In August, his mother sends a new complaint to Gomes da Silva. “I learned that there has already been a sharing of what is available, the figure of what is owed to the Sons of Brazil and the empress was revealed. Why don't all children participate in these distributions? These are my son's interests and my duty is therefore to take the necessary steps to guarantee his rights (...) I hoped that the Duchess of Bragança, in memory of H.M, would not leave his son in such a state of embarrassment.” Clémence concludes the letter by requesting an advance on the inheritance, which was denied.


Despite the absence of D. Pedro, the boy received the best education available at the time, something that his biological father always insisted on offering to all his children, both male and female. On April 1, 1839, close to completing 10 years, Pedro de Saisset was enrolled in one of the most notable educational establishments in France, the Lycée Louis-le-Grand, where his brother Pierre Joseph Ernest, born in Rio de Janeiro, was already studying. The school, founded by the Jesuits in the heart of the Latin Quarter in October 1593, was also responsible for the education of famous names such as the playwright Molière, the philosopher Voltaire, and the painter Delacroix. From there, seven Nobel Prizes came out, including Jean-Paul Sartre and Frédéric Passy.


Pedro and Ernest were interns. As they lived in Paris, they had the option of spending every Sunday at home or returning every two weeks, according to their parents' wishes. There were also those students who only returned home during school holidays, which should have been the case with the brothers Juan and Luis Paes de Andrade de Carvalho, both from Pernambuco state, who also studied at Louis-le-Grand in the 19th century.


The school notes, passed on exclusively to the Blog, indicate that Pedro was vaccinated against childhood illnesses and that he had rubella. Louis-le-Grand also insisted on registering that both had not made the First Communion, nor the Confirmation. In addition to the parents' addresses, the paternal grandmother, cousins Joseph Héliodore Garcin de Tassy and Marie Félicité Sophie Saisset, appear as the children's contacts. Garcin de Tassy is, to this day, considered one of France's greatest orientalists.


At the age of 15, just before finishing his studies, Pedro's life seems not to be the best. His biological father had died 10 years earlier and the adoptive one lived in Rio de Janeiro. With the death of D. Pedro, Pierre re-started his business at court, and from time to time, charged for his silence in relation to “his wife's son”, the way he referred to Pedro in matters of the pension guaranteed by the emperor.


A letter from Paulo Barbosa da Silva, butler of the Imperial House of Brazil, to the diplomat Araújo Ribeiro, who would later become Viscount of Rio Grande, indicates that Pedro was in need, a situation that was brought to the attention of D. Pedro II. “I had the honor of presenting to His Majesty the Emperor a letter sent by you, dated July 12th of the current year, concerning the state of poverty of Mme. de Saisset’s son.”


D. Pedro II, then, considered the possibility of Pedro de Saisset being educated in Munich by the physician and botanist Carl Friedrich Philipp von Martius, with whom he had a good relationship. The idea, however, did not go ahead. As mentioned in the letter, it would be necessary for Clémence to agree to hand over her son to be raised in another country. History shows that Pedro remained in France and completed his studies in September 1847. But, at that time, his address was Rue Ponthieu, home of his uncle Théodore Saisset, a war Admiral.

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