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A verdade e...

Updated: Dec 18, 2022

Os segredos eram a regra na família. No decorrer de décadas, nenhum tema embaraçoso foi exposto abertamente, nem mesmo nas cartas.

A vida de Pedro de Saisset na Califórnia, 15 anos após aquele traumático desembarque no Porto de São Francisco, estava finalmente se estabilizando. Com trabalho árduo e boa interlocução na comunidade local, o filho biológico do imperador D. Pedro I havia construído um bom negócio, casado e constituído família. Ele, agora, tinha estabilidade e San Jose era seu novo lar. Paris, definitivamente, não lhe fazia falta.


A viagem à Europa, em 1864, foi motivada por uma situação de força maior. A mãe, Clémence de Saisset, havia morrido em abril e a irmã, em julho do mesmo ano. Pedro já não as via desde 1848, quando embarcou no Émile e trocou a cidade natal pelo Rio de Janeiro, na intenção de tornar-se comerciante na Rua do Ouvidor. A mudança era uma vontade de Pierre, que queria o filho à frente dos negócios. Mas nada saiu como planejado.


Ao longo dos últimos anos, ele havia perdido Pierre, a mãe e a irmã. Restava-lhe somente Ernest, o irmão mais velho. Na narrativa do próprio Pedro, aquele retorno a Paris ocorreu por exigência da mãe. No testamento, Mme de Saisset deixava claro que o filho deveria receber pessoalmente um item específico da sua herança. E foi para atender a essa última vontade de Clémence que ele deixou São Francisco em 22 de outubro. O desembarque na França ocorreu em dezembro de 1864.


Na carta em que se apresenta ao irmão D. Pedro II, escrita em janeiro de 1865, ele afirma que somente soube da verdade sobre a sua origem após a morte da mãe, quando recebeu o misterioso legado, um envelope com diversas correspondências trocadas por ela e D. Pedro I, assim como outras endereçadas pelos representantes do imperador, tratando dos pagamentos de sua pensão. Os documentos não deixavam dúvidas sobre a sua paternidade. Ele era filho do duque de Bragança e irmão de D. Pedro II.


....A verdade de cada um


Na França, os Saisset mantinham uma longa tradição de serviços militares. Pierre era Cavaleiro da Legião de Honra, Ernest havia ingressado na marinha antes dos 20 anos, onde fazia bela carreira. O tio Theodore era admirado e respeitado por todos e tinha grande aspirações políticas. Fora promovido, em 1863, a contra-almirante. Alguns anos antes, quando o irmão Pierre ainda mantinha loja na Rua do Ouvidor, ele esteve no Brasil. Na época, era capitão de fragata e comandou o Alcebíades em missão pela América do Sul.


Desde antes de Pierre, os Saisset valorizavam extremamente as aparências e as relações com o poder. Há muitas gerações viviam de prestar serviços à aristocracia. Não se sabe exatamente quando ou por que Pierre e Clémence acrescentaram a partícula “de” ao sobrenome, tornando-o “de Saisset” e, assim, dando-lhe ares de nobreza. Theodore e Adelaide, apesar de um certo destaque na sociedade parisiense, não usavam o “de”. Eram simplesmente Saisset.


Tanto na família de Pierre como na de Clémence, os segredos pareciam ser a regra e, nem mesmo nas cartas que trocaram no decorrer de várias décadas, expunham abertamente um problema ou algo que pudessem considerar vergonhoso. Foi assim com a tia Judite, irmã de Clémence, cuja existência só foi revelada quando um oficial de justiça bateu à porta de Ernest e informou sobre a morte da parente e a herança por ela deixada. Judite morava em Paris, distante apenas três quilômetros da casa do sobrinho. Nem ele e tampouco Pedro conheceram a tia, que faleceu aos 79 anos de idade. A mãe jamais comentou sobre a irmã.


No Rio de Janeiro, Pedro permaneceu por mais de cinco meses, morando sozinho na Rua do Rosário e trabalhando na loja da família, situada em um dos endereços mais notórios do centro comercial. A Rua do Ouvidor era uma espécie de arquivo público de tudo o que acontecia na corte e arredores, funcionava como memória da cidade. É, portanto, difícil imaginar que ele tenha chegado e saído do Rio sem ouvir uma história sequer sobre o envolvimento amoroso de sua mãe com o imperador do Brasil.


Dadas as convenções sociais da época, vale considerar que ele tenha aguardado até a morte de Clémence para revelar o tal segredo. Em 1848, a verdade não interessava a ninguém. Poderia estragar os negócios do pai na corte e manchar o nome da família na França. Afinal, os fatos mostravam que Mme de Saisset, além de adúltera, havia engravidado de outro homem. Pelas leis da época, poderia ser punida com três anos de prisão. Orgulho, moral e honra eram os sentimentos que definiam as relações sociais na França do século XIX. E, perante a sociedade que os de Saisset queriam tanto agradar, não havia nada de admirável em se tornar amante, nem mesmo de um imperador.


Pedro pode ter ouvido de Monsieur la Riviére, cidadão belga que mantinha relações profissionais com Pierre, a verdade sobre a sua paternidade. La Riviére pode, também, ter-lhe contado sobre a herança deixada pelo pai biológico. Em testamento, o imperador concedeu ao filho Pedro um dezoito avos de seus bens, valores que foram sacados integralmente por Pierre, em dezembro de 1841.


O diário de Pedro no Brasil, mantido pela Sourisseau Academy, mostra que após aproximar-se de la Riviére, o rapaz muda drasticamente. Os planos de tocar os negócios dos Saisset na corte brasileira são substituídos por outras aventuras. Sem avisar à família, em fevereiro de 1849, ele embarca em um navio, no porto do Rio de Janeiro, e desembarca na Califórnia, cinco meses depois. No decorrer desse período, la Riviére se apossa de tudo o que Pierre tem no Rio e Pedro corta definitivamente as relações com o único pai que conheceu. Pierre morre em 1852, sem jamais receber respostas às súplicas encaminhadas ao filho.



The truth and...


Secrets were the rule in the family. Over decades, no embarrassing subjects have been brought up openly, not even in letters


The life of Pedro de Saisset in California, 15 years after that traumatic landing in the Port of San Francisco, was finally stabilizing. Hard work and a good transit in the local community enabled the biological son of Emperor D. Pedro I to build a successful business. He also married and raised a family. Pedro now had stability and San Jose became his new home. He definitely did not miss Paris.


The trip to Europe in October 1864 was motivated by a situation of force majeure. His mother, Clémence de Saisset, had died in April and his sister in July of the same year. Pedro had not seen both of them since 1848, when he boarded the Émile and left Paris for Rio de Janeiro with the intention of becoming a merchant in Rua do Ouvidor. The change was a wish of Pierre, who wanted his son to be in charge of the family business. But nothing went as planned.


Over the past decade and a half, he had lost Pierre, his mother, and his sister. Only Ernest, his eldest brother, remained alive. In Pedro's own narrative, that return to Paris was due to his mother's demand. In her will, Mme de Saisset made it clear that her son was to personally receive a specific item from his inheritance. And it was to fulfill this last will of Clémence that he left San Francisco on October 22nd. The landing in France took place in December 1864.


In the letter in which he introduced himself to his brother D. Pedro II, written in January 1865, he states that he only learned the truth about his origin after his mother's death, when he received the mysterious legacy, an envelope with several letters exchanged by her and D. Pedro I, as well as other correspondences addressed by the emperor's representatives, dealing with the payment of his pension. The documents left no doubt about his paternity. He was the Duke of Bragança’s son and brother of D. Pedro II.


…The truth of each one


In France, the de Saissets maintained a long tradition of military service. Pierre was a Chevalier of the Legion of Honor, Ernest had joined the navy before the age of 20, where he had made a fine career. Uncle Theodore was admired and respected by all and had great political aspirations. In 1863, he was promoted to Rear Admiral. A few years earlier, when his brother Pierre still had a shop on Rua do Ouvidor, he visited Brazil. At the time, he was captain of frigate and commanded the Alcebíades on a mission throughout South America.


Since before Pierre, the de Saissets placed a high value on appearances and the cultivation of powerful relationships. For many generations they lived by rendering services to the aristocracy. It is not known exactly when or why Pierre and Clémence added the particle “de” to the last name, making it “de Saisset” and thus giving it an air of nobility. Theodore and Adelaide, despite a certain prominence in Parisian society, did not use the “de”. They were simply Saisset.


In both Pierre's and Clémence's families, secrets seemed to be the rule, and not even in the letters they exchanged over the course of several decades did they openly expose a problem or anything they might consider shameful. A good example of such secrecy is the story of aunt Judite, Clémence's sister, whose existence was only revealed when a court official knocked on Ernest's door and reported on the death of the relative and the inheritance she had left. Judite lived in Paris, just 1.8 mile from her nephew's home. Neither Ernest nor Pedro ever met their aunt, who died at the age of 79. Their mother never commented on the sister.


In Rio de Janeiro, Pedro stayed for more than five months, living alone at Rua do Rosário and working in the family store, located in one of the most notorious addresses in the commercial center. Rua do Ouvidor was a sort of public archive of everything that happened in the Court and surroundings, it functioned as a memory of the city. It is, therefore, difficult to imagine that he arrived and left Rio without hearing any story about his mother's love affair with the Emperor of Brazil.


Given the social conventions of the time, it is worth considering that Pedro waited until Clémence's death to reveal that secret. In 1848, the truth was of no interest to anyone. It could spoil Pierre’s business at the Court, in Rio, and tarnish the family name in France. After all, the facts showed that Mme de Saisset, in addition to being an adulteress, had become pregnant by man other than her husband. By the laws of the time, she could be punished with three years in prison. Pride, moral and honor were the values that defined social relations in France during the 19th century. And, in the face of the society the de Saissets were so keen to please, there was nothing admirable about becoming a mistress, not even the one of an Emperor.


Pedro may have heard from Monsieur la Riviére, a Belgian citizen who maintained professional relations with Pierre, the truth about his paternity. La Riviére may also have told him about the inheritance left by his biological father. In his will, the

emperor granted his son Pedro one-eighteenth of his assets, amounts that were withdrawn in full by Pierre, in December 1841.


The diary of Pedro’s visit to Brazil, kept by the Sourisseau Academy, shows that after approaching la Riviére, the boy changes drastically. The plans to run the de Saisset business at the Brazilian Court are fast replaced by other adventures. Without notifying his family, he boarded a ship in the port of Rio de Janeiro, in February 1849, and disembarked in California five months later. During this period, la Riviére takes over everything Pierre had in Rio de Janeiro and Pedro definitively cuts off relations with the only father he has ever known. Pierre dies in 1852, without ever receiving any answer to the letters he forwarded to his son.

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