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Uma estranha amizade

Updated: Dec 15, 2022

No instante em que o caminho de Pedro se cruza com o de Monsieur la Riviérie, ele muda drasticamente de comportamento e de objetivos

Sem saber que é filho do imperador D. Pedro I, o jovem Pedro de Saisset desembarca sozinho no Rio de Janeiro, em agosto de 1848. A viagem foi a pedido de Pierre, marido de Clémence, único pai que ele conhecia desde a infância. Assim como o casal de Saisset, 22 anos antes, o rapaz chega cheio de planos e de entusiasmo.


Enquanto explora a cidade e se inteira dos negócios da família, também estuda piano com o professor Neytz. “Permita Deus que meu desejo seja satisfeito, que chegue a tocar alguma cousa”, anota no diário onde registra os acontecimentos da viagem. O documento é mantido pela Sourisseau Academy, em San Jose, na Califórnia.


Pedro só tem elogios para o Rio. Em um primeiro momento, a nova vida agradou-lhe bastante. Em novembro de 1848, foi ao Porto da Estrela, local onde funcionou uma fábrica de pólvora, construída por D. João VI. “Durante a viagem, admiramos o bom estado da estrada que, sem contradição, não fica atrás d’algumas estradas departamentais da França”. Em 1892 Estrela deixará de ser município e será incorporado a Magé.


A corte se apresenta como uma terra de oportunidades, mas também de descobertas, desafios e adversidades. Além dos lugares, Pedro conhece pessoas, inclusive um certo belga, de nome Félix la Riviérie. No instante em que o caminho de Pedro se cruza com o de Monsieur la Riviérie, ele muda drasticamente de comportamento e de objetivos. Em janeiro de 1849, passa o Dia de Reis na casa do belga e, por causa das fortes chuvas, é obrigado a pernoitar na chácara dos anfitriões.


A partir desse momento, as aulas e anotações em língua portuguesa, como ditados e declinações verbais, registrados no diário, são substituídos por estudos do idioma inglês. Até que no dia 2 de fevereiro de 1849, sem qualquer aviso à família, ele segue para o porto do Rio de Janeiro e embarca no navio Hector, rumo à Califórnia. No mês de abril, já em Valparaíso, no Chile, Pedro escreve a Mr. la Riviérie. “Meu caro amigo, você pode ver pela data nesta carta que passamos dois meses no mar antes de chegarmos ao porto de Valparaiso. Uma longa viagem!”

Ele agradece a la Riviérie pela carta de apresentação ao cônsul belga e prossegue informando que emprestou ao capitão do navio, Evander Kemp, as quantias de 3 soberanos, 4 half-eagle americanos, 3 dobrões espanhóis, 1 dobrão boliviano, e um dólar de prata. “Estes valores devem ser devolvidos na chegada à Califórnia”, registra Pedro no diário e parte, na sequência, para o estudo o verbo inglês to have.


Em nenhum momento ele menciona os motivos que o levaram a deixar repentinamente o Rio de Janeiro. Pierre só tomará conhecimento da decisão do filho muito tempo depois. No dia 22 de abril, o Hector zarpa de Valparaíso e prossegue sua jornada rumo à Califórnia, aonde chega no dia 2 de julho.

A região norte-americana estava iniciando a corrida do ouro, cujas primeiras descobertas foram registradas em 1848.


No ano seguinte, chegam os garimpeiros forty-niners, assim chamados por causa do ano de 1849. Mas Pedro nunca se aventurou diretamente na busca pelo metal precioso. A empreitada exigia um certo investimento inicial e, ao que se sabe, o capitão Kemp jamais restituiu-lhe os valores a ele confiados no início da viagem.


Sozinho, enganado e com pouquíssimos recursos, ele se muda para San Jose, maior cidade da região, e começa a trabalhar na travessia de pessoas e cargas a partir do recém-criado porto de Alviso, que se manteve, até a chegada da ferrovia, como principal porta de entrada para San Jose e o mais importante centro de transporte para todo o Vale de Santa Clara.


O rapaz formado pelo Lycée Louis-le-Grand, fluente em três idiomas, ajudava a carregar o barco com mercadorias e fazia de tudo um pouco. Transportava trigo, feno, madeira, animais...o que fosse necessário. Assim, ele começou a construir uma nova vida longe de Paris, longe do Rio de Janeiro... em um mundo muito distante.



A strange friendship


The moment Pedro crosses paths with Monsieur la Riviére, he drastically changes his behavior and goals


Unaware that he is the son of Emperor D. Pedro I, the young Pedro de Saisset disembarked alone in Rio de Janeiro in August 1848. The trip was made at the request of Pierre, Clémence's husband, the only father he had known since childhood. Just like his parents, 22 years before, the young man arrived in Brazil full of plans and enthusiasm.


While exploring the city and finding out about the family business, he also studied piano with Professor Neytz. “May God grant that my desire be satisfied, that I manage to play something,”he writes in the diary where he records the events of the trip. The document is maintained by the Sourisseau Academy in San Jose, California.


Pedro has nothing but praise for Rio. At first, the new life pleased him a lot. In November 1848, he went to Porto da Estrela, a place that received several investments made by his grandfather, king D. João VI. “During the trip, we admired the good condition of the road which, without contradiction, is not behind some departmental roads in France.” In 1892, Estrela ceased to be a municipality and was incorporated into Magé region.


At first, the Brazilian court presents itself as a land of opportunities, but also of discoveries, challenges and adversity. In addition to lots of new places, Pedro also gets to know people, including a certain Belgian man named Félix la Riviére. The moment Pedro crosses paths with Monsieur la Riviérie, he drastically changes his behavior and goals. In January 1849, he spent Epiphany at the la Riviére’s, and because of the heavy rains, was forced to spend the night at his host’s farm.


From that moment on, classes and notes in Portuguese, such as dictations and verbal declensions recorded in the diary, are replaced by studies of the English language and on February 2, 1849, without giving any notice to his family, he went to the port of Rio de Janeiro and boarded the Hector, a ship bound for California. In April, already in Valparaíso, Chile, Pedro writes to Mr. la Riviére. “My dear friend, you can see from the date on this letter that we spent two months at sea before arriving in the port of Valparaiso. A long trip!"


He thanks la Riviére for the letter of introduction to the Belgian consul and goes on to inform him that he put in the care of the ship's captain, Evander Kemp, the sums of 3 sovereigns, 4 American half-eagles, 3 Spanish doubloons, 1 Bolivian doubloon, and one silver dollar. “These amounts must be returned upon arrival in California,” records Pedro in his diary and then sets out to study the English verb to have.


At no point does he mention the reasons that led him to suddenly leave Rio de Janeiro. Pierre will only find out about his son's decision much later. On the 22nd of April 1849, the Hector sets sail from Valparaíso and continues its journey toward California, where it arrives on the 2nd of July. The North American region was starting the gold rush, whose first discoveries were recorded in 1848.


The following year, the prospectors, forty-niners, arrive, so called because of the year 1849. But Pedro never ventured directly into the search for the precious metal. The undertaking required a certain amount of initial investment and, as far as is known, Captain Kemp never returned the amounts entrusted to him at the beginning of the voyage.


Alone, deceived and with very few resources, he moves to San Jose, the largest city in the region, and begins to work on the crossing of people and cargo from the newly created port of Alviso, the main gateway to San Jose until the arrival of the railroad, and the most important transportation hub for the entire Santa Clara Valley.


The young man, graduated from the Lycée Louis-le-Grand, fluent in three languages, helped to load the boat with goods and did a little of everything. He carried wheat, hay, wood, animals... whatever was needed. Thus, he began to build a new life far from Paris, far from Rio de Janeiro... in a world far away from everything and everyone he ever knew.



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