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Fúria

Updated: Dec 16, 2022

“Aos cambaleios, agarrado a um grosso porrete de caviúna, o marido vingador entrou em casa"

Depois que conheceu a bela Clémence de Saisset, D. Pedro passou a visitá-la em sua própria casa. A frequência era tamanha, ao ponto de seu secretário particular, Francisco Gomes da Silva, que mais tarde ganhará o apelido de Chalaça, procurá-lo no endereço da modista quando havia despachos urgentes ou acontecimentos familiares envolvendo o filho Pedro II.


“...O Chalaça embarafustou pelo sobradão da Sé-Sé acima. Sua Magestade, como de costume, lá estava. O Sé-sé, como de costume, lá não estava.”12 registra o romancista histórico Paulo Setúbal. O Rio inteiro sabia e comentava as constantes idas do Imperador ao sobrado do casal e o fato de o comerciante Pierre de Saisset, apesar do pouco tempo na Corte, ter conquistado status de “Fornecedor de S. M. o Imperador”, posto cobiçado e ainda não alcançado por quem já estava no ramo há anos.


A constância e a assiduidade nas visitas a Madame, sempre na ausência do marido, alimentaram o disse me disse na Rua do Ouvidor durante meses. Os negócios mantinham Pierre por muitas horas longe de casa. Quando precisava ir ao porto, saía quase sempre ao amanhecer para receber os grandes baús com as últimas novidades vindas de Paris. Além disso, o sócio, Bernard Wallerstein, era muito conhecido e respeitado na Corte. Ele gostava de manter uma carteira de clientes seletos, que em vez de irem ao centro da cidade, preferiam que o luxo fosse até eles, no conforto de suas casas. As visitas domiciliares ficavam a cargo de Pierre.


Em um fim de tarde, porém, lembra Setúbal “(...) não se sabe porquê, roncou na alma do Sé-Sé um tardio assomo de cólera.” 13 A história que se desenvolve relata que o francês deixou a sua loja na Ouvidor, em direção à Rua Direita. Antes, no Café Carceller, teria sentado e pedido genebra, um destilado à base de cevada, com sabor de zimbro, muito apreciado na Bélgica e na Holanda. A bebida, logo que foi criada, ainda na Idade Média, era administrada em gotas, como medicamento para diversos tipos de males. Naquele dia, o Saisset também buscava a sua cura e bebeu do elixir sem pudores. “Aos cambaleios, agarrado a um grosso porrete de caviúna, o marido vingador entrou em casa.” 14


Lá, encontrou Clémence admirando-se no belo espelho de moldura dourada, trazido de Veneza. A modista experimentava um toucado de seda azul com pluma, espécie de adorno para a cabeça. “O marido aproximou-se dela devagarinho, um riso satânico no lábio.” 14 Pierre, prossegue Setúbal, teria começado a quebradeira pelo espelho, partiu para os frascos de perfume e, na sequência, acertou o porrete na esposa. “(...) amarfanhou a mulher de pancadaria. A pobre Clemência uivava. O Sé-Sé dizia impropérios. Os criados acudiram aos berros. Um horror!” 15 A demonstração de violência desenfreada cessou somente quando um passante, alarmado pela gritaria, sacou uma arma e deu um tiro de advertência.


A pancadaria na casa dos de Saisset gerou um incidente diplomático, que resultou na volta do casal para Paris. No dia 30 de dezembro de 1828, eles embarcaram no Marchioness of Salisbury, navio que os conduziu de volta à Europa. No bolso, o marido levava uma promissória a ser compensada pelo banqueiro Rothschilds, no valor de 75 mil francos, a título de reparo pelos prejuízos com a saída repentina. Na barriga, a esposa carregava um filho de S. M. D. Pedro I, o Imperador do Brasil.


Fury


“Staggering, clutching a thick caviúna club, the avenging husband entered the house"


After he met the beautiful Clémence de Saisset, D. Pedro began to visit her in her own home. The frequency was such that his private secretary, Francisco Gomes da Silva, who would later be nicknamed Chalaça, sought him out at the dressmaker's address when there were urgent dispatches or family events involving his son Pedro II.


“...The Chalaça was embarrassed by the Sé-Sé mansion above. His majesty, as usual, was there. The Sé-sé, as usual, was not there.” 12 registers the historical novelist Paulo Setúbal. The whole of Rio knew and commented on the Emperor's constant trips to the couple's mansion and the fact that the merchant Pierre de Saisset, despite his short time at the Court, had achieved the status of "Supplier of His Majesty the Emperor", a coveted position that has yet to be achieved by someone who had been in the business for years.


The constancy and assiduity in the visits to Madame, always in the absence of her husband, fueled the gossip on Rua do Ouvidor for months. Business kept Pierre away from home for many hours. When he needed to go to port, he almost always left at dawn to receive the big trunks with the latest news from Paris. Furthermore, the partner, Bernard Wallerstein, was well known and respected at Court. He liked to keep a portfolio of select clients, who, instead of going downtown, preferred luxury to come to them, in the comfort of their homes. Home visits were the responsibility of Pierre.


One late afternoon, however, Setúbal remembers “(...) for some reason, a belated outburst of anger rumbled in the heart of the Cathedral.” The story that develops relates that the Frenchman left his shop on Ouvidor, toward Rua Direita. Earlier, at Café Carceller, he would have sat down and ordered gin, a barley-based distillate with a juniper flavor, much appreciated in Belgium and the Netherlands. The drink, as soon as it was created, still in the Middle Ages, was administered in drops, as a medicine for various types of ailments. That day, de Saisset was also looking for his cure and drank the elixir without shame. “Staggering, clutching a thick caviúna club, the avenging husband entered the house.”


There, he found Clémence admiring herself in the beautiful mirror with a gilded frame, brought from Venice. The dressmaker was trying on a blue silk headdress with a feather, a kind of headdress. “Her husband approached her slowly, a satanic smile on his lips.” Pierre, continues Setúbal, would have started the break through the mirror, moved on to the perfume bottles and, in the sequence, hit his wife with a club. “(...) he crumpled the woman with beatings. “Poor Clemency howled. The Sé-Sé said improprieties. The servants came screaming. Horrible!" The display of unbridled violence ceased only when a passer-by, alarmed by the shouting, drew a gun and fired a warning shot.


The beating at the de Saisset household sparked a diplomatic incident, which resulted in the couple returning to Paris. On December 30, 1828, they boarded the Marchioness of Salisbury, a ship that took them back to Europe. In his pocket, the husband carried a promissory note to be compensated by the Rothschilds banker, in the amount of 75 thousand francs, as compensation for the damage caused by the sudden departure. In her belly, the wife carried a son of H.M Pedro I, the Emperor of Brazil.


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