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Em terras cariocas...

Updated: Dec 16, 2022

Ambos eram filhos bastardos de Pedro I. Sendo um, rei de Portugal. O outro, imperador do Brasil

A viagem do Havre ao Rio de Janeiro foi a primeira grande aventura do jovem Pedro de Saisset, filho biológico do imperador do Brasil. Quando saiu de casa, em junho de 1848, ele tinha 18 anos e enfrentou sozinho dois longos meses no mar. Somente em agosto pode avistar a bela Baía da Guanabara e pisar em solo carioca. Logo depois da chegada, apresentou-se ao consulado do seu país, onde forneceu como endereço local a Rua do Rozário, no. 94. No mesmo edifício, funcionava uma casa que vendia e afinava pianos, a Piano S. H. Herz.

O estabelecimento oferecia exemplares assinados pelo célebre compositor e fabricante de piano Henri Herz, músico nascido na Áustria, que viveu boa parte da vida na França e faleceu em Paris. Ele foi responsável por criar uma das primeiras salas públicas de concertos da capital francesa, a “Salle Herz”, que funcionava na Rue de la Victoire, no. 48. Não muito longe dali, no número 14, ficava o escritório dos de Saisset.

O diário da viagem de Pedro ao Brasil, mantido pela Sourisseau Academy, mostra que ele estava incumbido de anunciar a Piano S. H. Herz no Rio de Janeiro. No dia 6 de novembro de 1848, ele confirma que preparou e publicou no Jornal do Commercio um anúncio. “Conforme suas ordens, mandei hontem ao Jornal do Commercio o anúncio de pianos que fizemos ao respeitável público desta Corte (...).”


No Rio, ele aprendeu um pouco do idioma, fez amigos e visitou os arredores da cidade, inclusive Petrópolis. Era bastante cuidadoso e exigente no aprendizado da língua portuguesa. Em um dos exercícios, copiou a história de Portugal. A narrativa conta como João IV ascendeu ao poder em 1º de dezembro de 1640. Pedro anota que “o duque de Bragança descendia em linha direta de Alfonso, filho natural de João, o Bastardo.”


João nasceu em 1357 e era assim chamado por ser filho de D. Pedro I de Portugal com uma amante, condição que não o impediu, registra Pedro de Saisset no diário, de tornar-se rei e passar o título aos seus descendentes. Apesar de separadas por quase cinco séculos, as histórias de João e Pedro de Saisset guardam alguma semelhança. Ambos eram filhos bastardos de Pedro I. Sendo um, rei de Portugal. O outro, imperador do Brasil e, mais tarde, coroado Pedro IV de Portugal.


A vida de Pedro no Rio de Janeiro corre sem maiores atropelos. Além das aulas de português, ele procura se divertir e, em janeiro de 1849, visita Petrópolis, onde chega já no início da noite e coberto de lama. “Éramos como moços que não tinham o que comer”. O dono do hotel onde ele e um amigo ficaram ofereceu-lhes um grande baile. “...aconteça o que acontecer, de minha parte, quero dansar até a meia noite...Não seria curioso dansar em Petrópolis com as Allemãs? ...e nada é mais fácil do que convidar uma allemã para dansar. Basta lhe dizer ‘Wollen Sie dantzen mit mir oder Wollen Sie haben die Güte und waltsen mit mir’. Ela aceita ou não. No primeiro caso, ela diz ‘Já’ e lhe oferece o seu braço. No segundo, ela responde ‘Nein, mein Schatz’ Então, vossa mercê agradece a vai procurar outra.”


É possível que o baile mencionado por Pedro tenha ocorrido no Hotel Bragança, inaugurado em 1848 e de propriedade do médico francês Tomás Charbonier. Um século depois, o Anuário do Museu Imperial registraria que “nada acontecia em Petrópolis que não fosse no Bragança; bailes, concertos, reuniões, teatro, namoro...” Ponto de encontro dos veranistas, o estabelecimento se situava nas esquinas da Rua do Imperador e Alencar Lima. O hotel tinha 15 janelas de frente, 92 quartos, salão de visitas, de jogos, de baile, ampla cozinha, restaurante para 200 pessoas e uma adega. Havia, ainda, jardins e cachoeiras.



In Rio, the land of cariocas ...


The stories of João and Pedro de Saisset bear some resemblance. Both were bastard sons of Pedro I. One being King of Portugal. The other, Emperor of Brazil


The trip from Le Havre to Rio de Janeiro was the first great adventure of the young Pedro de Saisset, biological son of the Emperor of Brazil. When he left home in June 1848, he was 18 and faced two long months at sea alone. Only in August he was able see the beautiful Baía da Guanabara and set foot on Rio de Janeiro's soil. Soon after arriving, he presented himself at the French consulate where he provided Rua do Rozário, no. 94 as his address. In the same building, there was a house that offered and tuned pianos, Piano S. H. Herz.


The establishment sold copies of the musical instrument signed by the famous composer and piano maker, Henri Herz, a musician born in Austria, who lived most of his life in France and died in Paris. He was responsible for creating one of the first public concert halls in the French capital, the “Salle Herz”, which was located at Rue de la Victoire, No. 48. Not far away, at No. 14, was the office of the de Saissets.


The diary of Pedro's trip to Brazil, kept by the Sourisseau Academy, shows that he was in charge of advertising Piano S. H. Herz in Rio de Janeiro. On November 6, 1848, he confirms that he prepared and published an advertisement in the Jornal do Commercio. “According to your orders, yesterday I sent to Jornal do Commercio the announcement of pianos to be made to the respectable public of this Court (...).”


In Rio, he learned a little of the language, made friends and visited the outskirts of the city, including Petrópolis. He was very careful and demanding in learning the Portuguese language. In one of the exercises, he copied the history of Portugal. The narrative tells how João IV came to power on December 1, 1640. Pedro notes that “the Duke of Bragança descended in a direct line from Alfonso, the natural son of João, the Bastard.”


João was born in 1357 and was so called because he was the son of D. Pedro I of Portugal and a mistress, a condition that did not prevent him, Pedro de Saisset records in his diary, from becoming king and passing the title on to his descendants. Despite being separated by nearly five centuries, the stories of João and Pedro de Saisset bear some resemblance. Both were bastard sons of Pedro I. One being King of Portugal. The other, Emperor of Brazil and later crowned Pedro IV of Portugal.


Pedro's life in Rio de Janeiro runs smoothly. In addition to the Portuguese classes, he tried to have fun and in January 1849, he visited Petrópolis, where he arrived in the early evening, covered in mud. “We were like young men who had nothing to eat.” The owner of the hotel where he and a friend stayed threw a big ball for them. “...whatever happens, for my part, I want to dance until midnight... Wouldn't it be interesting to dance in Petrópolis with the German girls? ...and nothing is easier than asking a German woman to dance. Just tell her 'Wollen Sie dantzen mit mir oder Wollen Sie haben die Güte und waltsen mit mir'. She accepts or not. In the first case, she says 'Ja' and offers you her arm. On the second, she replies 'Nein, mein Schatz' Then you thank her and go find another one.”


It is possible that the ball mentioned by Pedro took place at the Hotel Bragança, opened in 1848 and owned by the French physician Thomas Charbonier. A century later, the Yearbook of the Imperial Museum recorded that “nothing happened in Petrópolis outside the Bragança; dances, concerts, meetings, theater, dating...”. Meeting point for vacationers, the establishment was located on the corners of Rua do Imperador and Rua Alencar Lima. The hotel had 15 front windows, 92 private rooms, a living room, a game room, a ballroom, a large kitchen, a restaurant for 200 people and a wine cellar. There were also gardens and waterfalls.



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