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Desejo

Updated: Jun 5, 2022

Ela também queria divertimento no novo mundo. E D. Pedro tinha lá os seus encantos


Na época do Império, os acontecimentos no Rio de Janeiro ganhavam uma dimensão bem maior quando envolviam a Rua do Ouvidor. Em meio a todo o frisson com a chegada dos novos inquilinos, não demorou para que D. Pedro I tomasse conhecimento da presença na Corte de uma beldade como Madame de Saisset. Já fazia algum tempo que ele não se encontrava com Domitila de Castro Canto e Melo com a mesma frequência. A esposa, Maria Leopoldina, havia falecido em dezembro de 1826 e a população associava a sua infidelidade à deterioração da saúde e morte da Imperatriz que tanto adoravam. Leopoldina estava grávida e perdeu o filho depois de um aborto espontâneo.


Em luto, D. Pedro se absteve de escapadas por algum tempo. Mas não por muito. Quando o assunto era mulheres, nem mesmo uma opinião pública desfavorável servia de empecilho para as suas investidas amorosas.


Viúvo aos 28 anos e longe da amante, o Imperador se viu livre para novas aventuras. A Rua do Ouvidor, sempre repleta de possibilidades, era o endereço perfeito para desfrutar da recente solteirice. E Madame, um incentivo a mais para os passeios ao centro da cidade. “(..) conheceu em má hora a bela senhora Saisset, talvez a mais inteligente e bonita das lojistas francezas da rua do Ouvidor” 10, avalia o historiador Pedro Calmon. Ainda sobre Clémence, Calmon conta que “Era ambiciosa, hábil e lida; decerto lindas histórias lhe povoavam a cabeça perfeita de burguesinha que sepultava numa loja de papéis a mocidade e a nostalgia.” 11.


O Rio de então era farto de encantos, mas apesar de cidade vibrante, repleta de estrangeiros e novidades, não se comparava a Paris. No balanço geral, Clémence havia feito um grande sacrifício pelo marido ao deixar a mais radiante das capitais europeia e meter-se no Brasil. Fez, no entanto, o que dela era esperado enquanto profissional e parceira nos negócios. Quando instada, abriu mão da vida na Europa para garantir a continuidade da empresa e a prosperidade da família.


A francesa, porém, avaliou que seria justa alguma compensação por tamanho ato de abnegação. Queria ela, também, a sua fatia de divertimento no novo mundo. E D. Pedro tinha lá os seus encantos e jeito com as mulheres. Não se valia somente da posição de Imperador para conquistá-las. O ritual de sedução era tão importante quanto o objetivo final e incluía uma generosa pitada de intimidade e paixão. Sempre cavalheiro, dava-lhes apelidos carinhosos, enviava cartas, fazia galanteios com direito a serenatas, poemas e, até mesmo, escaladas às janelas.


Sendo ele um homem casado ou já prometido a alguma fidalga do velho mundo, o romance ganhava ares de amor impossível, ingrediente que servia para desatinar ainda mais o juízo das apaixonadas. Fossem elas já desposadas ou não, muitas sucumbiam ao charme rústico daquele homem que, apesar de senhor do Palácio de São Cristóvão, selava e ferrava ele próprio os seus cavalos, era hábil na marcenaria e possuía, ainda, refinado talento musical. Madame, assim como várias outras que lhe antecederam e sucederam, teve os seus momentos de intimidade com o Imperador e nem a gravidez do segundo filho, Pierre Joseph Ernest, serviu-lhes de impedimento. O menino nasceu em 26 de janeiro de 1828, a partir de quando o caso ficaria mais evidente.


Desire


She also wanted to have some fun in the New World and Dom Pedro wasn’t short of charms

Back in the times of the Empire, events in Rio de Janeiro took on a much greater dimension when they somehow involved The Ouvidor Street. In the midst of all the excitement with the new tenants’ arrival, it didn't take long for D. Pedro I to become aware of the presence at Court of such a beauty like Madame de Saisset. He was no longer visiting Domitila de Castro Canto e Melo, his favorite mistress, with the same frequency. Maria Leopoldina, his wife, had died in December 1826 and the population associated his infidelity with the deterioration of her health and the subsequent death of the Empress they so much adored. In mourning, D. Pedro refrained from courtship for some time, but not for long. When it came to women, not even an unfavorable public opinion was an impediment to his love advances.


Widowed at 28 and away from Domitila, the Emperor found himself free for new adventures. The Ouvidor Street, always full of possibilities, was the perfect address to enjoy his recent bachelorhood. And Madame was an extra incentive for trips to the city center. “(..) he met the beautiful lady Saisset at a bad time, she was perhaps the most intelligent and beautiful of the French shopkeepers on Ouvidor” 10, according to historian Pedro Calmon. Still talking about Clémence de Saisset, Calmon says that “She was ambitious, skillful and literate; beautiful stories probably filled her perfect burgeois head since burying her youth and nostalgia in a paper shop.” 11.


Rio at that time was a very exciting city, but despite being vibrant, full of foreigners, and news from all over the world, it did not compare to Paris. On balance, Clémence had made a great sacrifice for her husband by leaving the most radiant of all the European capitals. However, she did what was expected from her as a professional and business partner. When asked, she gave up her life in Europe to ensure the continuity of the company and the prosperity of the family.


The dressmaker, however, considered that it would be fair to have some compensation for such an act of self-sacrifice. She also wanted her share of fun in the new world and D. Pedro had enough charms and way with women. He didn't just use the position of Emperor to conquer them. The seduction ritual was as important as the end goal and included a generous dash of intimacy and passion. Always a gentleman, he gave them affectionate nicknames, sent letters, covered them with compliments, including serenades, poems and even climbing to their windows.


Regardless of being married or already betrothed to some noblewoman back in Europe, he would go ahead with the romance, which ended up by gaining an air of impossible love, an ingredient that served to further derail the enamoreds’ judgment. Many women, whether married or not, succumbed to the rustic charm of that man who, despite being lord of the São Cristóvão Palace, saddled and shoed his horses himself, was skilled in woodworking and also possessed refined musical talent. Madame, as well as several others who preceded and followed her, had their moments of intimacy with the Emperor and not even the pregnancy of her second child, Pierre Joseph Ernest, was an impediment to the couple. The boy was born on January 26, 1828, and from that point on their love affair would become more evident. It would, as it did, inevitably raise suspicions from the part of Madame’s husband.


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