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A decisão

Updated: Jun 5, 2022

“...eu sinto não ter sabido em 1848, quando estava no Rio de Janeiro, tão perto do senhor, o que sei agora.”


Pedro de Saisset já não dormia há dias e o hábito de refletir e tomar decisões em longas caminhadas, cultivado na ensolarada Califórnia, não era uma opção naquele momento porque Paris enfrentava um frio pouco comum para aquele período do ano. A neve, a chuva e o vento obrigavam-no a ficar a maior parte do tempo na casa dos tios, na rua Ponthieu, revolvendo os pensamentos e a decisão do que fazer com toda aquela informação, mantida em segredo por 36 anos.

Clémence, como que antevendo o dilema em que colocaria o filho, antecipou-se na tentativa de manipular a decisão final sobre o assunto. Na frente do envelope registrou os dizeres “Se ele recusar para si próprio, que aceite para os seus filhos”, o que o fez pensar na pequena Henriette, de 4 anos, e em Pierre Ernest, então com 2 anos. Ambos estavam na Califórnia com a esposa, o suficientemente distante de toda aquela insanidade que sempre rodeou a sua vida familiar na França. Mas o envelope que recebera das mãos do tio, executor do testamento de sua mãe, havia certamente superado qualquer padrão de excentricidade, até mesmo os estabelecidos por Madame de Saisset.

Pedro conferiu o conteúdo pela enésima vez, como quem busca um sinal. E olha que ele já havia tomado decisões bastante difíceis e vencido situações extremas. Nada, porém, se comparava àquilo. As cartas, as palavras, as imagens revelavam toda uma vida que, apesar de sua, existia em um mundo paralelo. Havia ele, o rapaz que nasceu em Paris, frequentou o Lycée Louis-le-Grand e passou boa parte da vida no número 7 da Rue Bergère e na casa dos avós paternos, na bela Avenida de Sceaux, em Versalhes. Ele, o Pedro que gostava de danças, de viagens e de vestir-se com elegância.


E, agora, havia também aquele outro. Um Pedro que existia ativamente e influenciava decisões importantes, mas que ganhava vida somente nas cartas trocadas por um pequeno grupo de pessoas e cuja existência fora utilizada como moeda de troca para sustentar a dele, tanto financeira como social e emocional. Era segunda-feira e uma boa forma de encerrar aquele gelado mês de janeiro e começar a semana seria procurando respostas. E foi com a mente repleta de indagações que ele pegou papel e tinta para dirigir-se a quem poderia ajudá-lo a fundir esses dois Pedros. Escrever aquela carta abriria uma oportunidade para reescrever a própria história.


Paris, 30 de janeiro de 1865

A Sua Majestade Dom Pedro II

Imperador do Brasil.


Senhor,

Alguns meses atrás, cartas que recebi na Califórnia, onde vivo desde 1849, anunciaram a morte de minha pobre mãe e, também, me transmitiram o desejo expresso por ela, em seu leito de morte, que viesse pessoalmente tomar posse de certos papéis sobre minha pessoa e meus interesses. Parti no dia 22 de outubro de 1864 de São Francisco. Ao sair de São José de Guadalupe, cidade onde vivo desde 1850, deixei minha esposa e dois filhos pequenos; somente o respeito pela memória de uma mãe pode autorizar um sacrifício desses!


Em 15 de dezembro de 1864, poucos dias após minha chegada a Paris, o genro de minha mãe, executor de seus últimos desejos, deu-me um pacote de papéis fechados em um envelope, subscritado com as seguintes palavras: "Entregar a Pedro de Alcantara Brazileiro, filho natural de S.M. Dom Pedro I, Imperador do Brasil". Eu não esconderei do Senhor; a emoção que senti foi terrível, pensei na minha mãe... Eu queria jogar aqueles papéis no fogo e fazer todas as evidências desaparecerem, quando uma voz interior me disse que seria uma covardia não obedecer!


Não queria começar, aos 36 anos de idade, a ter um motivo de reprovação pessoal, sobretudo porque a subscrição trazia também essas palavras: "Se ele recusar para si próprio, que aceite para os seus filhos." Eu não tinha mais o direito de recusar, um pai tem o dever de cuidar dos seus! Abri o envelope de onde tirei de setenta a oitenta cartas, das quais vinte e nove inteiramente escritas e assinadas pela mão de seu pai, de memória muito gloriosa, e dirigidas à minha mãe, no Rio de Janeiro em 1828, e o resto das cartas, dos Senhores Francisco Gomes da Silva, Lasserre, Oliveira etc. provando claramente a minha origem.

Também descobri, com esses papéis, que Sua Majestade Imperial tinha gentilmente cuidado do meu futuro e tinha estabelecido em meu benefício e para a minha educação, uma pequena pensão anual de dois mil francos; e que ele tinha, antes disso, ordenado que uma pensão de Quinze mil francos por ano fosse concedia à minha mãe durante toda a sua vida, e colocando a certificação na frente do Sr. Lasserre, o Imperador teria dito a minha mãe "Com isso você não será rica, mas estará segura das incertezas do comércio e se eu morrer, fique tranquila, meu filho respeitará meus desejos e o pagamento desta pensão nunca será interrompido.”


Enfim, por uma carta de Dom Francisco Gomes da Silva, datada de Lisboa, em 28 de setembro de 1834, anunciando a morte do Imperador, chegou ao conhecimento de minha mãe que S.M. falecida não tinha se esquecido de seu filho; na verdade, por sua vontade, ele tinha cedido a mim um dezoito avos de todos os seus bens.


Fui ao encontro do antigo tabelião de seu Ilustre Pai, que depois de olhar-me fixamente disse: "É surpreendente como você se parece com uma pessoa que eu conhecia muito bem." Eu deixei esse senhor com as suas reflexões, e perguntei-lhe o que queria saber; quando de repente ele grita "Meu deus! Não estou enganado, você é a criança que S.M.I. Dom Pedro I me falou tanto durante sua viagem a Paris!”


Vendo que ele sabia de tudo, pedi-lhe conselhos: Ele me disse para escrever a S.M.I. a Duquesa de Leuchtenberg, Imperatriz Viúva do Brasil, a quem, por precaução, o seu muito ilustre pai me havia especialmente recomendado, e pedir-lhe uma audiência, a resposta chegou-me por telégrafo: “Vosso tutor recebeu tudo durante sua minoridade, temos os recibos, e o estado de saúde de S.M.I. a Duquesa de Bragança não permite que ela conceda audiências!” Tendo meu tutor natural P.J.F de Saisset morrido no Rio de Janeiro em 1852, sem prestar contas, resta-me dizer Amém!


Quanto às pensões referidas nas cartas e recibos de títulos, apenas dois mandatos ou dois anos foram pagos à minha mãe, que entregou seu título de pensão ao Sr. Isidoro da Costa e Oliveira, Secretário de Sua Exce, o Marquês de Barbacena, para que fosse trocado por outro.... que ainda está por vir. A troca ainda não foi feita. Assim, por quase trinta anos, minha mãe foi privada de uma pensão de Quinze mil francos, que lhe era devida, porque foi prometida pelo Ilustre Falecido.


De minha parte, Senhor, estou longe de reclamar de tudo isso, porque eu tive a felicidade, pelo meu trabalho na Califórnia, de ser de alguma utilidade para minha mãe, e é apenas para obedecer aos seus últimos desejos que eu coloco esses fatos para a sua apreciação. Para mim, Senhor, não peço nada além da sua estima, mas para os dois filhos que tenho na Califórnia, para onde retorno em breve, eu vos pediria garantir-lhes o futuro, eles se chamam: Marie Josephe Henriette, nascida em 1860 e Ernest Pierre nascido em 11 de setembro de 1862, no Pueblo de San José de Guadalupe, Alta Califórnia. Enviarei as fotos deles e mais detalhes. O senhor pode escrever para mim diretamente no Pueblo de San José "Pedro de Saisset, Esq".


Eu vos envio uma pequena fotografia que encomendei a partir do meu medalhão (minha única herança), que me foi enviada junto com os papéis. Dei uma cópia para S.M.I. a princesa de Áquila.

O senhor irá reconhecê-lo sem dificuldades, pois o senhor é quatro anos mais velho do que eu, e eu me lembro de ter sido levado a ele várias vezes pelo senhor Gomes da Silva, em Paris, e pelo meu padrinho, o Chevalier Gonçalves; ele me fez pular nos seus joelhos e me deu bombons; algum tempo depois, vestiram-me todo de preto, dizendo-me que meu Amigo estava morto. Eu não sabia quem era aquele que eu havia acabado de perder; foi somente 31 anos depois que eu descobri. Estranha jornada!


Um fato que não vou deixar passar em branco, e que o senhor entenderá como quiser, é o seguinte: Doze ou quinze dias atrás, na Igreja de St. Phillipe du Roule, meus olhos se encontraram por acaso com os de uma Senhora de luto, a quem eu não conhecia; ao olhá-la, senti um je ne sais quoi que me atraiu para ela... A missa terminou, eu deixei esta senhora e seus dois filhos saírem primeiro, mas cheguei à porta a tempo de vê-la entrar no carro; ela olhou-me e parecia falar sobre mim a seus filhos... No dia seguinte ouvi da boca de S. A. o Conde de Áquila, a quem fui visitar, que a princesa tinha estado na missa em que eu estava! Isso não é estranho?


Eu termino dizendo-lhe o quanto eu sinto não ter sabido em 1848, quando estava no Rio de Janeiro, tão perto do senhor, o que sei agora, porque o senhor poderia ter contado comigo como a um... amigo. Se ainda houver tempo agora, se eu puder servir a este lindo país que sempre senti ter deixado, pode o senhor dispor de mim. Falo bem e escrevo o inglês e o espanhol, aprenderei o português quando quiser, sou ex-aluno da melhor faculdade de Paris, Bacharel em Letras etc.


Acredite em mim, Senhor


De Sua Majestade, o mais devoto de seus servidores

Pedro de Alcantara Brazileiro de Saisset

Pedro de Saisset Esq.

San Jose de Gpe; Perto de São Francisco; Alta Califórnia.

(Fonte: Museu Imperial. Original em francês; tradução de Tina Evaristo)

__________________

The decision


“…I am sorry for not knowing in 1848, when I was in Rio de Janeiro, so close to you, what I know know.”


The impact was overwhelming. Pedro hadn't slept in days and the habit of reflecting and making decisions on long walks, cultivated in sunny California, was not an option at that moment because Paris faced an unusual cold for that time of year. The snow, added to the rain and the wind, forced him to spend most of his time at his uncle's house on Ponthieu Street, turning over his thoughts and deciding what to do with all that information kept in secret for 36 years.


Clémence, as if knowing the dilemma in which she would place Pedro, made an attempt to manipulate his decision on the matter. On the front of the envelope she recorded the words “If he refuses for himself, he may accept for his children”, what made him think of little Henriette, 4 years old, and Pierre Ernest, then 2 years old. Both were in California with his wife, far away from all the insanity that had always surrounded his family life in France. But the envelope he had received from his uncle, executor of his mother's will, had certainly surpassed any standard of eccentricity, even those set by Madame de Saisset.


Pedro checked the contents for the umpteenth time, as if looking for a sign. Though he had already made very difficult decisions and overcome extreme situations, nothing, however, compared to this. The letters, the words, the images revealed a whole life that, despite his own, existed in a parallel world. There was him, the boy who was born in Paris, attended the Lycée Louis-le-Grand and spent most of his life at 7 Rue Bergère and at his paternal grandparents' house at the beautiful Avenue de Sceaux in Versailles. Him, the Pedro who liked dancing, traveling and dressing elegantly.


And now, there was also that other one. A Pedro who actively existed and influenced important decisions, but that only came to life in the letters exchanged by a small group of people and whose existence was used as a bargaining chip to support his own life, both financially, socially and emotionally. It was Monday and a good way to end that cold month of January and start a the week would be looking for answers. It was with a mind full of questions that he took paper and ink to address the one who could help him merge these two Pedros. Writing that letter would open up an opportunity to rewrite his own history.


Paris, January 30, 1865

His Majesty Dom Pedro II

Emperor of Brazil.


Sir,

A few months ago, letters I received in California, where I have lived since 1849, announced the death of my poor mother and also conveyed to me the wish expressed by her, on her deathbed, that I would come personally to take possession of certain papers on my person and my interests. I left San Francisco on October 22nd, 1864. Upon leaving San Jose de Guadalupe, the city where I have lived since 1850, I left my wife and two small children; only the respect for a mother's memory can authorize such a sacrifice!


On December 15, 1864, a few days after my arrival in Paris, my mother's brother-in-law, executor of her last wishes, gave me a package of papers sealed in an envelope, signed with the following words: "Deliver to Pedro de Alcantara Brazileiro, natural son of S.M. Dom Pedro I, Emperor of Brazil". I will not hide it from you, Sir; the emotion I felt was terrible, I thought of my mother... I was about to throw all these papers in the fire and make all the evidence disappear, when an inner voice told me that it would be cowardly not to obey!


I didn't want to start, at the age of 36, having a reason for personal disapproval, especially since the subscription on the envelope also showed these words: "If he refuses for himself, let him accept for his children." I no longer had the right to refuse, a father has a duty to take care of his own! I opened the envelope and found seventy to eighty letters, of which twenty-nine were entirely written and signed by the hand of your father, of very glorious memory, and addressed to my mother in Rio de Janeiro in 1828, and the rest of the letters, from misters Francisco Gomes da Silva, Lasserre, Oliveira etc. clearly proving my origin.


I also discovered from these papers that His Imperial Majesty had kindly looked after my future and had established for my benefit and my education a small annual pension of two thousand francs; and that he had, before that, ordered that a pension of Fifteen thousand francs a year be granted to my mother throughout her life, and putting the certification before Mr. Lasserre, the Emperor would have said to my mother "With this you will not be rich, but you will be safe from the uncertainties of your business life and if I die, rest assured, my son will respect my wishes and the payment of this pension will never be interrupted."


Finally, by a letter from Dom Francisco Gomes da Silva, dated from Lisbon, on September 28, 1834, announcing the death of the Emperor, my mother learned that H.M. had not forgotten his son; indeed, by his will, he had yielded to me one-eighteenth of all his estate.


I met up with the former notary of your Illustrious Father and after staring at me he said: "It is surprising how you look like a person I knew very well." I left this gentleman to his reflections and asked him what I needed to know; when suddenly he shouts "My god! I'm not mistaken, you are the child that H.I M. Dom Pedro I talked so much about during his trip to Paris!”


Since he knew everything, I asked him for an advice: He told me to write to the Duchess of Leuchtenberg, Dowager Empress of Brazil, to whom, as a precaution, your very illustrious father had specially recommended me. I should ask her for an audience. The answer came to me by telegraph: “Your tutor received everything during your minority, we have the receipts, and the state of health of Her Imperial Majesty the Duchess of Bragança does not allow her to grant audiences!” Having my natural tutor, P.J.F de Saisset, died in Rio de Janeiro in 1852 without providing any accountability, it remains for me only to say Amen!


As for the pensions referred to in the letters and receipts, only two terms or two years were paid to my mother, who handed over her pension title to Mr. Isidoro da Costa e Oliveira, Secretary of His Excellency, the Marquis of Barbacena, so that it could be exchanged for another….which is yet to come. The exchange has not yet been made. Thus for nearly thirty years my mother was deprived of a pension of Fifteen thousand francs, which was owed to her because it had been promised by the Illustrious Deceased.


For my part, Sir, I am far from complaining about all of this, because I have had the fortune, through my work in California, to be of some use to my mother, and it is only to obey her last wishes that I submit these facts to your consideration. For me, Sir, I ask nothing but your esteem. As for the two children I have in California, to which I will soon return, I would ask you to guarantee their future, their names are: Marie Josephe Henriette, born in 1860 and Ernest Pierre born September 11, 1862, in the Pueblo de San Jose de Guadalupe, Alta California. I will send their pictures and more details. You can write to me directly at the Pueblo de San Jose "Pedro de Saisset, Esq".


I send you a small photograph that I had made from the one I carry in my locket (my only inheritance), which was sent to me along with the mentioned papers. I gave one to H.I.M the Princess of Aquila. You will recognize him without difficulty, as you are four years older than me, and I remember being taken to him several times by Mr. Gomes da Silva, in Paris, and by my godfather, Chevalier Gonçalves; he made me jump on his knees and gave me candy; sometime later they dressed me all in black, telling me that my Friend was dead. I didn't know who the one I had just lost was; it was only 31 years later that I found out. Strange journey!


A fact that I will not let go unnoticed, and that you will understand as you wish, is the following: Twelve or fifteen days ago, at church St. Phillipe du Roule, my eyes met by chance those of a lady in mourning, whom I did not know; Looking at her, I felt a je ne sais quoi that drew me to her... Mass ended, I let this lady and her two children out first, but I reached the door in time to see her get into the car; she looked at me and seemed to be talking about me to her children... The next day I heard from the Count of Aquila, whom I went to visit, that the princess had been at the same mass I had attended! Isn't that weird?


I will finish by telling you how sorry I am for not having known in 1848, when I was in Rio de Janeiro, so close to you, what I know now, because you could have counted on me as a... friend. If there's still time now, if I can serve this beautiful country, which I always felt sorry for having left, you can count on me. I speak and write English and Spanish well, I will learn Portuguese whenever I want, I am a former student of the best college in Paris, Bachelor of Arts, etc.


Believe in me, Sir


Of his Majesty the most devoted servant

Pedro de Alcantara Brazileiro de Saisset

Pedro de Saisset Esq.

San Jose de Gpe; near San Francisco; Upper California.

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